sábado, 31 de janeiro de 2009

9 horas, silêncio.

Não sou muito velho, mas algumas coisas ja não me emocionam. Coisas  do tipo que agente acaba fazendo durante muito tempo, perdem o gosto, a graça, é como comer um doce, a primeira colherada faz fechar os olhos as vezes a língua até chega a doer um pouquinho, depois a coisa vai ficando normal e, se o doce for grande, as vezes chega até a ser enjoativo. 

Mas as coisas não assim não, não para a Dona Ida, minha Avó.

Ela tem uns 85 anos, eu acho, aliás todo mundo fica nessas, só acha. Nunca conta a idade a ninguêm, a cor dos cabelos vai, a vaidade fica. Se ela tem 85 anos, deve assistir a novela a uns 50, tv tupi pra ela é a mesma coisa que rede globo, ambas são lançamento.

Todo dia coloca na novela e todo dia faz daquele momento um momento sagrado, começa com a manutenção da autoridade, na hora da novela ninguém abre a boca, nem os filhos (de 50 anos) nem os netos (eu e a prima), assim sempre foi, e assim sempre será, se com o tempo os filhos e os netos "vão para a vida", na hora da novela a autoridade é dela.

Começa a novela, aquele silêncio na sala, o volume da TV aumenta, se estava em 5, triplica, as criancas da rua param, os cachorros perdem o latido, é hora da novela, minha avó para, minha rua para, o pais para, a novela.

Começam tambêm as emoções da novela, como não assisto, fico ouvindo, todo aquele drama na TV e toda aquela emoção na sala, nessa hora aprendo várias coisas. O nome de muitos santos por exemplo, a cada emoção alguem lança um "minha nossa senhora" e quando a emoção é forte mesmo apelam logo a "jesus cristo!" ,mas quando a coisa fica séria mesmo, já não valem nem santos nem filhos, apelam mesmo é pro gigante, lançam logo "meu deus do céu!", novela é coisa sagrada.

Acho que as vezes até chegam a inventar uns santos, tipo "ai meu Santo Pereirão do norte ", nunca ouvi essa na minha casa, mas parece o nome de algum santo que alguém em algum lugar diria na hora da novela, é um nome bastante dramático, longo, específico, o tipo de santo que ajudaria o protagonista a superar uma grande crise, como as drogas, ou a gravidez da sua filha única, viciada, aidética e namorada de um traficante ateu.
Bom, agora vou ler o jornal, quem sabe até invento algum santo pra superar essa crise.

Aquele abraço pra quem fica.

2 comentários:

Anônimo disse...

A-D-O-R-O!
(tudo)

perola disse...

Adorei! Apesar de conhecer a Ida.Censegui observar o olhar de aguém novo, que consegue enchergar a dinamica da idade.Que no mundo atul é raro

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